Reflexões Missionárias

Estrela inativaEstrela inativaEstrela inativaEstrela inativaEstrela inativa

Em 1965 eu entrava para um seminário para ser Missionário.

Durante alguns anos alimentei uma vontade firme de ser Missionário no Xingu, e depois na Nova Guiné.
Admirava muito todos os que se consagravam a Deus e viviam o Espírito Missionário, cumprindo à risca a todos as ordens e determinações dos superiores, por amor ao Reino de Deus.
Não compreendia muito bem o \"Muitos são chamados e poucos os escolhidos\".
Por que todos não são chamados?
Por que todos não são escolhidos?
Quem os escolhe?


O que é necessário para ser escolhido?
Por que muitos são chamados?
Por que não chamar só os que serão escolhidos?
Quem é que manda nessa confusão toda?
Por que fiquei triste quando deixei o seminário e não trazia no peito a cruz missionária?
Me lembro que, naquele dia, éramos quatro preparando nossas malas, dando adeus a todos.
Ao sair pelo enorme portão que nos protegeu durante um certo tempo, eu olhei para trás; senti vontade de chorar por ver desabarem todos os meus sonhos.
Passava a mão no peito e não encontrava a Cruz do Missionário que eu tanto queria ser.
Era só tristeza! Não sei o que pensavam os meus colegas, mas eu sofria.
Sim, sofria muito porque não levava comigo a Cruz Missionária.
Eu queria ser um daqueles pregadores que arrebatariam as multidões, fazendo todo mundo chorar de arrependimento por seus pecados.
Eu queria ver todos correndo para as igrejas, arrependidos, pedindo perdão e louvando a Deus.
Mas ia embora, estava deixando a grande família do seminário que me acolheu e possibilitou que eu vivesse um pouco mais a fé e me instruísse.
A família que me deu condição de sair do submundo, da marginalização, e que queria fazer de mim um homem cristão, um missionário. Mas eu ia embora, e comigo mais quatro colegas, todos sem destino, sem dinheiro, sem profissão e sem amigos numa cidade grande, onde o mal prolifera, o mundo atrai os jovens e oferece as vantagens fáceis para uma vida desregrada.
Não demorou muito e eu já não pensava muito naqueles que queria salvar.
Estava agora preocupado em me salvar da fome, da ganância, da prostituição que me rodeava.
Foi uma luta medonha!
De vez enquando me encontrava com algum amigo do seminário, e aí vinham as novidades!
Fulano foi mandado embora, sicrano saiu, beltrano abandonou... e assim por diante.
Eu ficava triste porque eu queria ser um missionário e não fora escolhido, e os que foram não aceitaram!
Lutava muito para manter minha fé, mas as contradições eram muitas!
Meus colegas foram deixando o seminário não queriam saber mais nada de igreja, quantos entregaram-se às bebedeiras, farras e à prostituição.
Senti que deveria fazer alguma coisa.
Mas só depois de casado é que descobri minha vocação missionária, quando os jovens com quem trabalhava se acercavam de mim para ouvir a palavra de Deus.
Muitos choravam e, arrependidos, buscavam a reconciliação com Deus e mudavam suas vidas.
Assim um grupo ia se formando, e mais jovens sedentos da Palavra Sagrada acercavam-se desse grupo que, aos poucos, crescia forte na fé e na oração.
Compartilhando suas vidas, descobriram a maneira fácil de se ajudarem e se porem a serviço da comunidade, cada um com a capacidade que Deus lhe deu.
Cada um ia descobrindo sua vocação cristã, seu papel importante na Igreja de Cristo.
E foi na convivência com cristãos que sofrem toda sorte de injustiças sociais e morais que descobrimos a importância do trabalho missionário do leigo que se entrega à evangelização, levando a palavra de salvação do Cristo ressuscitado.
Foi convivendo com muita gente que descobrimos que o Evangelho se vive, se encarna, e que não se explica puramente com palavras.
E foi também no estudo, na pesquisa, que descobrimos que o Vaticano II nos convocava a sermos fermento para mexer a massa ao nosso redor, e transformá-la.
Entendi meditando o Evangelho de Jesus que ser sal da terra era assumir minha vocação missionária recebida no batismo.
Mas como ser sal?
Que tipo de sal?
Em que quantidade?
A experiência do trabalho diário com muita gente nos mostrou que ser sal, só, não é suficiente.
É preciso ser sal bom e na quantidade certa.
Uma comida sem sal é horrível.
Mas apesar de ser horrível, eu posso engoli-la.
Mas se tiver sal demais, é mais horrível ainda, e eu não posso engolir.
Cuspo fora.
Mas se o sal estiver no alimento na quantidade certa, se dissolve, desaparece deixando o sabor, o sinal da sua presença, invisível, mas real.
Se eu estiver num ambiente como, por exemplo, um baile, e lá eu quiser dar meu testemunho de cristão e, para isso, no final de uma música, eu começar a gritar as palavras do Evangelho de Jesus, os que estão no salão vão me mandar para o inferno.
Mas se eu me comportar de maneira diferente da maioria, se eu simplesmente for me divertir, respeitando e exigindo respeito, eu vou questionar muita gente, vou deixar um sinal naquela massa sem que ninguém tenha percebido que eu sou cristão.
Ser missionário é ser sal na quantidade certa.
Ser missionário hoje, para mim, significa muito mais que ir para Nova Guiné.
Ser missionário é para mim aceitar viver o Cristo dia a dia, apesar do mundo que nos envolve: um mundo de injustiças, de mentiras, de incoerências e de gananciosos que não querem viver o amor.
Ser missionário para mim é ser o sal forte que serve para salgar e preservar da podridão o homem que se destrói a si mesmo e aos outros.
Ser missionário é manter acesa a luz colocada no candelabro para iluminar a todos os que estão em casa.
É ser essa luz orientando o caminho que leva para Deus, testemunhando com a vida as palavras proferidas.
Ser missionário para mim é dizer sim e não, conforme for necessário.
Ser missionário é ter coragem de dizer verdades nuas e cruas, com amor, sem se importar com os comentários.
Ser missionário é ter coragem de incomodar os omissos e fazer com que percam o sono porque a consciência está pesada.
Ser missionário é colocar o coração em Cristo e não no dinheiro que cega.
Ser missionário é respeitar e amar a esposa e os filhos como troféus maiores dessa vida.
Ser missionário é, também, ir para outras cidades levando a palavra de Deus aos que não a conhecem, ou animar os que querem viver o Evangelho mas necessitam da troca de experiências.
Ser missionário é pensar vinte e quatro horas por dia como pregar melhor, e preparar-se para isso, no estudo e na oração.
Ser missionário é deixar Cristo viver em nós.
Ser missionário é resplandecer para os olhos dos missionados como Cristo resplandecia em sua Divindade, sem ofuscar os corações sensíveis a Deus.
Ser missionário é viver o batismo em sua plenitude, na alegria de viver a graça de Deus em nós.
Ser missionário é despertar a vocação missionária de todo cristão.
Ser missionário é fazer sorrir o desesperado e oprimido e fazer chorar o opressor para que encontre Deus.
Ser missionário é fazer boas obras e colocá-las para que todos possam vê-las e louvar a Deus por intermédio de Cristo, o primeiro e maior de todos os missionários.
Ser missionário é ter paciência de andar com as pessoas dizendo bom dia até o momento em que possamos dizer-lhes que Jesus é o Senhor.
Ser missionário é, muitas vezes, deixar o aconchego e o conforto da família por causa de Jesus.
Ser missionário é aceitar por amor a Jesus que o esposo fique fora de casa pregando o Evangelho e, na ausência dele, com os filhos pedir ao Espírito Santo de Deus que o use como instrumento de amor, de paz e de união para outros casais.
Ser missionário é reconhecer-se \"...servo inútil...\" depois de ter feito tudo para que Cristo seja conhecido e amado.
Hoje não sofro por falta da minha cruz missionária, pois trago no peito como lembrança viva o Cristo crucificado que ainda hoje sofre no homem por causa da perversidade do pecado.
Entendo agora que ser missionário é, antes de mais nada, levar Deus aos corações da minha família, dos meus colegas de escola, no meu trabalho e a todos os que se acercarem de mim.
Ser missionário é ser chamado e querer ser escolhido sem se importar para o quê e onde.
Ser missionário é muito mais que pensar que se é.
Ser missionário é querer ser, e ser.