Reflexões Missionárias

Vocação missionária do leigo - Antoninho Tatto

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Quando uma pessoa ou um grupo de pessoas fazem uma experiência missionária, envolvem-se cada vez mais em situações novas de missão.

Há algo de misterioso, de especial, algo criador no termo missão.
Jovens que viveram inúmeras experiências agradáveis dentro da Igreja, tomam novo rumo de compromisso e apoio para evangelizar quando acontece uma animação missionária neles.
Antes viviam experiências de Deus pela ação dos agentes de pastoral, dos líderes de jovens, dos animadores de comunidade.
Agora, despertam para a missionaridade do cristão.
Passam de evangelizandos para evangelizadores.
Muitas vezes isso acontece pela simples mudança de termos.
Vivi essa experiência com um grupo de jovens.
Fazíamos todos os trabalhos de pastoral em uma comunidade.
E a comunidade crescia, a catequese contava cada vez com o maior número de cristãos, o grupo de jovens aumentava.
As liturgias eram bem participadas.
Havia trabalho de promoção humana.
Enquanto estávamos no período de organização, de implantação da pastoral, havia ânimo, entusiasmo.
À medida que tudo foi acontecendo e funcionando, sentimos que já não vivíamos com a mesma intensidade a nossa fé.
Foi quando recebemos a visita de um missionário brasileiro que vive em Nova Guiné, o Ir. Jorge Repelewicz, do Verbo Divino, hoje Pe. Jorge, que aconteceu a explosão.
Toda aquela ansiedade que estava em mim explodiu.
A presença do Ir. Jorge contando do seu trabalho, mostrando filmes da missão, trouxe de volta a responsabilidade que temos com os que não vivem a fé, com os que não tiveram ainda a graça de viver a experiência de Deus.
Daí para frente, todas as nossas reuniões se voltaram para as missões.
Em todas as pregações que eu fazia como animador, procurava levar a comunidade a pensar missionariamente.
Assim, a começar pelas comunidades vizinhas, o grupo passou a fazer fora o que vinha fazendo em sua comunidade.
Em pouco tempo levávamos nossas experiências a inúmeras comunidades.
O grupo chegou a viajar até 2.000 km nos fins de semana para atender pedidos de encontros.
Isto deu novo impulso ao grupo.
Os trabalhos na própria comunidade continuavam e cada vez mais gente se comprometia.
Toda a comunidade era missionária.
Dentro desse espírito missionário, saí daquela comunidade para iniciar uma outra num lugar mais carente.
Na nova comunidade, desde o início foi difundida nas crianças e nos adultos essa consciência missionária.
Nota-se que há, realmente, um quê de diferente, algo dinâmico no conceito missionário.
O missionário leigo, por isso, não é simplesmente um agente de pastoral.
Embora tendo iniciado meu trabalho como agente de pastoral, como animador de comunidade, sei que meu trabalho como missionário é diferente de minha atividade como animador.
Quando passei a fazer o trabalho missionário, senti que não se tratava simplesmente de uma maneira diferente de evangelizar, mas que algo mais profundo, mais substancioso mudava.
Passou a ser uma vida com orientação diferente.
A comunidade já não me bastava.
Ela era o ponto de partida, o ambiente de vida que me animava a ir em frente.
Mas ao mesmo tempo, prendia-me a ela.
Comecei a viver o conflito de querer partir definitivamente, mas estava ligado por laços fortes a tudo que acontecia na comunidade.
Compreendi, enfim, que era necessário sair para viver minha vocação, permitindo que outras pessoas da comunidade revelassem também sua vocação, ocupando espaços antes preenchidos por mim.
Na opção missionária acontece sempre a multiplicação.
A comunidade missionária não fica órfã.
Ao contrário, a comunidade que não é missionária, se torna campo de missão.
A partir deste desligamento da comunidade, acontece uma mudança radical.
O missionário leigo, embora viva sua vida normal no trabalho, na família, já não é o mesmo.
Ele não é o mesmo.
Ele não sai de seu ambiente nem volta para ele como antes.
Volta mas é como se não voltasse, pois seu pensamento está fora.
Volta para uma pausa, para preparar-se e logo sair a fim de realizar nova missão.
Não pertence mais à comunidade. Vai além dela.
Lembro-me bem que na comunidade tinha minhas atividades internas, constantes.
Isso me dava segurança e prestígio.
Agora nada disso acontece.
Vejo que tantos missionários leigos se jogam ao trabalho sem saber o que acontecerá amanhã.
É sempre uma nova aventura.
É um desafio diário.
Descobre sempre quando deve ir, o que fazer.
É o mistério da missão.
O fato de não pertencer a nenhuma comunidade, de ter saído de uma paróquia não pertencer a nenhuma, leva o missionário ao encontro de novas realidades, de novas pessoas, é o peregrino insaciável.
Com o missionário enviado por sua comunidade, e que se fixa longe dela, há fatores a ter presentes.
Os velhos amigos não estão com ele.
Os colegas de pastoral não estão ao lado para refletir, para lhe dar segurança.
Sabe que está fora da comunidade e entregue à própria sorte.
Os problemas que aparecem, ele deve resolvê-los.
Na perseguição, na incompreensão, não tem um ombro amigo, é sempre alguém de fora, um peregrino.
Naturalmente, pelos lugares onde passa, o missionário não encontra só desventuras. Na grande maioria das vezes é acolhido com carinho, admiração, com zelo, com muito amor.
O missionário leigo que passa por cidades ou vilas, também está sendo visto hoje como uma fonte de vida nova na Igreja.
Ele traz consigo uma nova esperança, um testemunho de vida que questiona, mas que liberta e alegra.
Onde vai não é conquista para a comunidade que o recebe, não passa a ser membro dela, mas simplesmente um coloborador rápido, um mensageiro por um certo tempo.
Quando chega já anuncia sua saída.
Mas está aqui em grande desafio do missionário: ele não pode contar com o calor humano, como afetividade que une os membros de uma mesma comunidade.
No nosso grupo temos experimentado essa realidade.
O fato de viajarmos constantemente pregando de cidade em cidade por vários dias, faz - nos sentir, à medida que o tempo passa, uma certa insegurança, uma fraqueza.
Tudo desaparece quando terminamos o roteiro e retornamos para junto da família.
É a nossa característica de missionários leigos.
Não nos ligamos a comunidade alguma, pois temos uma forte ligação com a família, com nosso ambiente de trabalho.
De outro lado, essa ligação passa a um plano secundário no mesmo instante em que chega a casa pois, se preciso fôr, está disposto a partir de novo para pregar em novas comunidades.
Embora o missionário seja bem aceito nas comunidades por onde passa, nunca penetra na intimidade da comunidade.
Pode compreendê-la, fazer descobertas importantes para melhor anunciar o Evangelho, mas nunca estará nos sentimentos mais íntimos.
A insegurança nesses casos é inevitável.
Como pode, então, o missionário continuar seu trabalho?
O que o anima e lhe dá condições de prosseguir?
É o chamado que recebeu, a vocação, que imprime nele a força que vem do Evangelho: é a palavra de Deus que ele leva encarnada que o impulsiona para continuar.
Não tem família, não tem comunidade, não tem nada que o segura.
Sente-se forte e destemido para concretizar seu trabalho com autoridade.
Sabe que não tem nenhuma autoridade por si só, mas tem a autoridade que vem da força que o Evangelho imprime em sua vida.
É por isso que o missionário leigo consegue, muitas vezes, deixar por onde passa marcas profundas de transformação.
Um padre dizia-nos no primeiro encontro de missionários leigos: "Existe um trabalho que só vocês conseguem fazer nas comunidades.
Durante três anos tentei orientar os casais de minha paróquia, e quase nada consegui.
Um dia convidei um casal de missionários leigos daqui, dentre vocês, e apenas numa tarde o casal conseguiu transmitir tudo aquilo que tentei em tanto tempo sem sucesso.
Hoje, três anos mais tarde, ainda permanecem os frutos daquele testemunho em minha paróquia."
Aqui está a razão primeira para levar a dimensão missionária aos ambientes onde, como leigos, vivemos.
Para que a força da palavra de Deus modifique costumes, tradições de injustiças, e um novo Reino aconteça.
O Espírito de Deus está presente no missionário que se abre às necessidades da Igreja.
Como Jesus disse, na hora certa as palavras acompanharão os testemunhos de vida para modificar o que precisa ser mudado.