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Durante muitos anos o MEAC foi conhecido como grupo de Neimar de Barros. Afinal, um pregador católico saído dos Meios de Comunicação, ex-produtor de Silvio Santos, que assinou programas de grande audiência na TV, no início dos anos 70 e que deixou tudo, depois de uma conversão dentro de um Cursilho – movimento católico em voga na época – e juntou-se a um grupo de artistas dispostos a evangelizar. Durante 15 anos Neimar e seu grupo percorreu mais de três mil cidades brasileiras, escreveu mais de uma dezena de livros, dentre eles Deus Negro, que vendeu milhões de exemplares.

Quem não se lembra de muitos de seus versos, tais quais aqueles consagrados no poema “Não tenho tempo”? Ou mesmo no desabafo: “Meu Deus, você é negro, que decepção”?  Decepção essa que se tornou clamorosa em 1986, quando uma bombástica entrevista, que esgotou várias edições da revista Veja, afirmava: Neimar diz que era espião da Igreja.  Tal entrevista arrasou seu grupo e fechou muitas portas para o trabalho evangelizador que desenvolviam na Igreja. Foi nessa época de crise e ceticismo que eu e minha esposa nos somamos a eles, como membros efetivos de um grupo de leigos dispostos a dar continuidade a um trabalho de “loucos”. É claro que nunca compreendemos, nem aceitamos uma linha sequer daquela entrevista. Também não tínhamos nenhuma explicação lógica, a não ser a conclusão mais óbvia: Neimar não está bem psicologicamente. Preferimos então o silêncio e a oração por ele.


No mesmo ano, dois livros vieram a público, editados e distribuídos pelo autor, sob os títulos de A Verdade de Neimar de Barros, vol I e II. Suas páginas eram de um conteúdo quase fantasmagórico, falando de um serviço prestado a uma tal Secretaria, vinculado ao movimento maçônico internacional, que tinha por fins levantar dados sigilosos da Igreja no Brasil. Neimar seria um agente infiltrado dessa facção maçônica e tentava explicar aquilo que Veja havia publicado. Os detalhes e a memória fantasiosa de um escritor ou roteirista de excelente produto novelesco ali estavam presentes, menos qualquer lampejo de verdade. Anos depois, Neimar fez uma visita ao Meac, durante uma de nossas assembleias festivas. Particularmente, conversamos muito, eu tentando entender a verdade e ele se embaralhando mais e mais em suas explicações. Ali, definitivamente, conclui pela sua instabilidade emocional, percebendo o quanto lhe era angustiante estar longe de sua vida missionária e daquele grupo que ajudou a fundar. Mas um fato era latente: Neimar continuava um homem de fé.


Hoje, quanto o grupo do qual fez parte de maneira marcante completa 40 anos, temos elementos suficientes para dar uma explicação mais lógica: na ocasião daquela entrevista Neimar já sofria os primeiros sinais do Alzheimer, doença degenerativa que ataca diretamente o cérebro humano. É fácil perceber isso nas linhas de sua entrevista e publicações posteriores, pois as mesmas são portadoras de pormenores do passado, nomes e fatos – mesmo que citados de forma fantasiosa e confusa – que caracterizam os primeiros sintomas da doença.  Aquele comunicador com o qual convivi na intimidade, capaz de gestos extremos de doação, que não mediu esforços para largar tudo em nome da missão, que escreveu um dos livros mais profundos sobre jejum e oração, intitulado O Templo do Silêncio, que arriscou vida, profissão, segurança e conforto pessoal apenas para evangelizar, não mentiu, não fingiu, não espiou. Espia, sim, os pecados da limitação humana, hoje completamente cego e surdo, sem reconhecer os próprios filhos, a esposa, os poucos amigos que ainda se preocupam com ele. Essa é a verdade de Neimar, um “Apóstolo Cansado” (título de um de seus muitos livros), estigmatizado por duas tuberculoses durante sua vida missionária, chagado pela incompreensão e perseguição da mídia, mas que aguarda tranquilo, na graça de Deus, o dia de sua “Reta Final” (outro de seus livros que nos ajuda a refletir sobre a própria morte).

WAGNER PEDRO MENEZES – MEAC – 40 anos