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PIORES OU MELHORES

“A pandemia é uma crise e não saímos iguais de uma crise: ou saímos piores ou melhores”. Com essa quase radical constatação, Papa Francisco já acena para os dias pós pandemia, anunciando ao mundo sua mais nova encíclica, cujo nome não poderia ser outro em tempos de crise: “Fratelli Tutti”, ou seja: “Todos irmãos”, em tradução livre. Sua grande preocupação com esse momento lembra a atitude normal de um bom pastor com seu rebanho, que realça a qualidade maior dum rebanho coeso (‘Devemos cuidar uns dos outros’), mas não ignora a realidade: “A pandemia evidencia como todos somos vulneráveis e estamos interconectados”, disse o Papa.

O oportuno documento será oficialmente lançado e assinado às vésperas do dia de São Francisco de Assis, na cidade italiana que lhe empresta o nome e sobre o túmulo do santo que inspira e conduz o atual pontificado católico. Não poderia ser diferente. A solenidade se dará logo após missa celebrada pelo santo padre, cuja inspiração e filiação franciscana é conhecida do mundo todo e, de certa forma, tem inspirado, conduzido e influenciado os documentos e ações do atual pontífice. Não seria diferente agora, quando a assustadora pandemia afeta a todos e ameaça o equilíbrio necessário à vida em todos os seus aspectos, até mesmo na realidade ecológica e social.

Francisco, o papa, afasta-se publicamente dum possível pedestal que o cargo possa lhe oferecer, para inserir-se na realidade dum mundo em caos e tornar-se mais um dentre todos, como bem o fez o outro Francisco, o pobre. Estamos juntos nessa. Não há como separar o joio e o trigo, o mau e o bom, o pobre e o rico, pois a responsabilidade social é a única possível tábua de salvação capaz de nos tirar desse sufoco. Por isso o subtítulo dessa encíclica reforça e lembra dois aspectos da cura que almejamos: “Sobre a fraternidade e a amizade social”. Ou seja: sem o espírito da fraternidade universal e sem o respeito social imposto por isolamentos forçados ou necessariamente saneadores, corremos o risco de vivenciarmos as visões apocalípcas. Alguém vai pagar pra ver?

Para melhor compreensão do tema central desse precioso e oportuno documento, o papa o apresenta com três faces. A primeira aborda aspectos da unidade necessária em tempos de crise global, sob o título “A fraternidade humana universal”. Como só agora damos conta do valor da unidade em tempos de crise, a fraternidade aqui exposta deixa de ser mera virtude religiosa para se tornar gritante necessidade de uma raça tentando sobreviver. Ou seja: pela dor se descobre o amor. Mais do que nunca, a cartilha franciscana dita as regras em sua oração fraternal: onde houver desespero, que eu leve a fé.

A segunda face traça os passos da vitória: “A solidariedade necessária após a pandemia”. Alguém vai pagar o preço. Não pensem as nações ricas que ficarão isentas de sua responsabilidade social para com o mundo após o diagnóstico da cura global. Serão caras, caríssimas, as ações necessárias à reconstrução do muito que já perdemos e haveremos de perder após esse surto. É preciso correr atrás do prejuízo, do tempo perdido na educação, dos prejuízos em tantas e tantas áreas que bem conhecemos. Aqui não pode prevalecer o interesse grupal, nacionalista, racial, ou seja lá o que for. A solidariedade humana será o único caminho plausível de uma reconstrução verdadeira, se não quisermos um retrocesso histórico. Por fim, “O diálogo inter-religioso” deverá pautar toda e qualquer orientação de fé, independentemente de suas diferenças ou profissões religiosas. Mais do que nunca, a fé humana busca luzes em meio à escuridão do momento e não podemos ofuscar essa grande aliada que nos renova as esperanças. Deus está acima de tudo. Ele é Pai. Somos irmãos...

WAGNER PEDRO MENEZES
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