Reflexões

Pesquisar

Últimas Reflexões

18 Fevereiro 2019
03 Fevereiro 2019
28 Janeiro 2019
21 Janeiro 2019
14 Janeiro 2019
07 Janeiro 2019
30 Dezembro 2018
24 Dezembro 2018
17 Dezembro 2018

ESCATOLOGIA EM XEQUE

Ou o choque escatológico. Um dia virá. Um dia será chegado o fim. Dos sonhos e pesadelos, da alegria e da dor, da matéria animada ou não. Da vida, da natureza, do mundo, do Universo que nos abriga... Mas quando será? “Quanto àquele dia e hora, ninguém sabe, nem os anjos do céu, nem o Filho, mas somente o Pai” (Mc 13, 32). Muitos torcem o nariz para tais palavras, outros arregalam os olhos, outros sorriem com ironia. Mas um dia a hora chega. E então, como será?

Eis um tema de difícil abordagem nos dias de hoje. Assim, dia-a-dia, ano a ano, a Igreja retoma esse assunto, bem real e fluente em toda a palavra de Deus, aquela que denominamos revelação divina. Tanto que é assunto sempre recorrente ao final de mais um ano litúrgico, encerrado pela festa de Cristo-Rei, Senhor do Universo. Tanto que nos estudos teológicos é matéria obrigatória, pois que aprofunda o final das coisas, da vida, da matéria, de tudo, como essencial ao cumprimento das promessas que dão sentido à vida espiritual. É o estudo do fim com aceno à imortalidade espiritual do homem. É o norte da espiritualidade, a vida plena que almeja a alma, não o corpo.

Mas como aprofundar tão expressiva verdade quando a grande maioria ainda é capaz de zombar da sua própria finitude, da sua transitoriedade, da fragilidade que veste a existência humana? Tudo no universo tem seu tempo e razão de existir. Na física e na matéria nada é permanente, estável. Tudo se transforma, é mutável, perecível. Até a mais sólida das matérias. O que se dirá então da matéria carnal putrefata dos animais que somos? Poucos, pouquíssimos são aqueles que se dão conta disso. Vivem o momento, o prazer de um dia atrás do outro, uma hora, um hiato do tempo e, quando se dão conta, a vida se foi. Colocam em xeque a necessidade de aprimoramento, crescimento, amadurecimento das razões existenciais, aquelas que justificam o tripé das questões da vida: Donde, por que e para onde? Donde viemos, porque viemos e para onde vamos. São esses os maiores dilemas da nossa espiritualidade, que a sensibilidade e o prazer apenas físicos preferem ignorar ou menosprezar.

Entretanto, a pedagogia cristã - em especial, o sábio calendário litúrgico da fé católica - não peca por omissão. Semana a semana, conduz seus fiéis a um ensinamento real e consolador, mostrando ao povo de Deus os benefícios de uma fé que contempla nossa realidade física e espiritual. A escatologia, para estes, não é um fim simplório, aterrador, mas uma finalidade existencial, compensatória. Tanto que sua reflexão nos leva a aclamar o reinado de Cristo. Tanto que tão logo reconhecemos seu poder e glória sobre a transitoriedade do mundo, da vida, das coisas, do tempo, vamos contemplá-lo num advento de novo tempo, novas esperanças que renascem sempre na manjedoura de Belém.

Pena que a manjedoura moderna esteja entulhada pelo grito do consumismo, da ilusão fantasiada por um ridículo velhinho de vermelho e seu saco sempre cheio, seu trenó voador, suas renas submissas ao chicote real das dores que nos infligem, afligem. Enquanto não retomarmos o verdadeiro significado da advento natalício, enquanto não valorizarmos com alegria o grande “presente” encarnado naquela criança, enquanto não recolocarmos no devido local o sentido da maior festa cristã, o fim que almejamos estará sujeito às nuvens e trovoadas de um grande desastre, quando tudo poderia ser festivo e translúcido como aquele dia em Belém. O fim virá. Ser belo e festivo depende de nós.

WAGNER PEDRO MENEZES
Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.